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Postagem em Destaque

Jacó: o Grande Empreendedor

Ayin/Shin/Resh A riqueza de Jacó foi planejada pelo próprio. Obviamente, ele teve duas qualidades imprescindíveis para prosperar: generosi...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Um homem morto por violar o Sábado (Números 15). Por que as Leis de Moisés eram tão rígidas?


















Na época de consolidação da nação israelita, após a saída do Egito, vemos uma extrema rigidez nas leis do deserto. O povo precisava muito disso porque ainda estava acostumado com os códigos pagãos e infantilmente procurava testar os castigos das leis de Moisés. Foi o caso do homem que foi morto porque estava colhendo lenha em dia de Sábado (Números 15. 32-36).


A foto acima é de uma Torah e uma "yad" (mão"). Esta é uma espécie de ponteira que auxilia os rabinos na leitura do texto, para que não se percam.


Ao longo da história humana, vemos que os códigos legislativos estão sempre sendo modificados ou evoluídos para acompanhar as atualidades culturais de cada sociedade. Portanto, nos tempos de Moisés não haviam Leis de Trânsito, porque não existiam veículos e estradas para tal, assim como nos dias de hoje, no Código Legislativo Brasileiro, não exitem as Leis de Primogenitura na divisão dos bens de herança (Deuteronômio 21.17), embora ainda haja algumas sociedades orientais que as cumpram.

É evidente que as Leis do Deserto foram elaboradas para formar um povo Santo, que tinha um D'us piedoso, e que hoje devem ser consideradas como leis espirituais. Assim, a proibição de semeadura de espécies diferentes em um mesmo campo, do uso de vestidos de dois tecidos diferentes, ou do acasalamento de animais de espécies distintas (Levíticos 19.19), podem parecer muito estranhas, mas oferecem uma mensagem implícita sobre a ordem nos Ciclos da Vida.

No decorrer da história bíblica vemos que foi aumentando a lassidão na guarda do Sábado, sendo certo considerar também que alguns passaram a guardá-lo por costume, e não por espírito religioso.

Assim, vemos ainda no deserto que repetidas vezes o povo desobedeceu a guarda do Sábado e contou com a misericórdia divina. Foram poupados da morte, mas receberam severos castigos nas aflições e privações do deserto sendo impedidos de teram as suas "casas próprias" na Terra que lhes foi prometida:

"Demais, eu levantei a minha mão para eles no deserto, para não os deixar entrar na terra que lhes tinha dado, a qual mana leite e mel, e é a glória de todas as terras, porque rejeitaram os meus juízos, e profanaram os meus sábados. Pois o seu coração andava após os seus ídolos. Não obstante o meu olho lhes perdoou, para não os destruir nem os consumir no deserto." Ezequiel 20.15-17

Reparamos também, no caso do homem morto por causa do Sábado, que era uma época de primeiro amor de Israel com o Seu D'us. Como foi um caso isolado, a sua atitude foi tratada como aberração e levantada como exemplo para quem mais resolvesse fazer o mesmo.
Consequentemente, o erro e a condenação desse homem serviu de lição para uma posterior mensagem que D'us tinha para o Seu povo: pelo código legislativo do deserto, todos estão condenados à morte, mas a misericórdia pode romper a Lei.

Na introdução do livro de Isaías, vemos D'us extremamente irritado com aqueles que guardavam o Sábado, cumpriam os ritos da Lei Mosaica e que não tinham um pingo de misericórdia aos que tinham limitações. Condenavam em suas mentes os que julgavam pecadores nos seus infortúnios. Por causa de seu orgulho em cumprir a lei publicamente, lançavam um olhar de desprezo aos necessitados:

" De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos.... Não continuies a trazer ofertas vãs! O incenso é para mim abominação, e também as luas novas, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniquidade, nem o ajuntamento solene.... escondo de vós os meus olhos...."
"....lavai-vos, e purificai-vos. Tirai a maldade dos vossos olhos atos de diante dos meus olhos! Cessai de fazer o mal, e aprendei a fazer o bem!
"Praticai o que é reto, ajudai o oprimido. Fazei justiça ao órfão, tratai da causa das viúvas." Isaías 1.11-19

Assim, vemos com a evolução da história de Israel, que aliviar as pesadas cargas do próximo está
acima de qualquer Lei Espiritual. Podemos até não conseguir cumprir fielmente a Lei Mosaica, mas se temos um coração voltado para observar e atender as necessidades de uma alma aflita, certamente conquistaremos pontos a mais para alcançar a misericórdia divina.






segunda-feira, 12 de julho de 2010

Jefté sacrificou a filha? Juízes 11.30-40 (I Parte)


Iremos discutir sobre um texto que traz alguns problemas em sua interpretação.
Trata-se de Juízes 11.30-40 onde Jefté realiza um voto de holocausto que recaiu sobre a sua primogênita.

Jefté era filho de uma prostituta. O seu pai, Gileade, era casado e tinha filhos mais velhos que o repeliram para não ter que dividir a herança com mais um (Juízes 11.2).

Fugido, desprezado e fadado à pobreza por não ter o que herdar, tornou-se um valente e famoso mercenário para poder sobreviver e, provavelmente, praticava delitos pelo grupo de "amigos" que atraiu, chamados de "levianos" em Juízes 11.3.
E por que os anciãos chamaram a Jefté, um bandido, para liderar Israel numa guerra contra os amonitas?

"Por que agora viestes a mim quando estais em aperto?" Números 11.7

Por ser desprezado, sem família e bens, a vida de Jefté e seus companheiros não valia nada, literalmente. No mundo antigo a vida das pessoas valia dinheiro!

Então, segundo a tabela de preços de Levíticos 27.2-8:

homem de 20 a 60 anos ____________50 shekel de prata

mulher de 20 a 60 anos ____________30 shekel de prata

homem de 5 a 20 anos _____________20 shekel de prata*

mulher de 5 a 20 anos______________10 shekel de prata

bebê menino de 1 mês a cinco anos_____5 shekel de prata

bebê menina de 1 mês a cinco anos_____3 shekel de prata

homem idoso acima de 60 anos_______15 shekel de prata

mulher idosa acima de 60 anos_______10 shekel de prata

*José era adolescente e foi vendido por 20 peças de prata ( Gênesis 37.28), ou seja, foi avaliado dentro dessa tabela.

As leis de Levíticos foram registradas bem depois da história de José. Foram mais de quatrocentos anos entre a venda de José por vinte peças de prata e a publicação da tabela pelas leis de Moisés.

Isso quer dizer que as Leis de Moisés foram uma adaptação santa de leis que já existiam e eram praticadas no mundo antigo.

Assim, o Código Hebreu foi feito de leis de outros códigos pagãos moldadas para a santificação de Israel. Isso pode parecer estranho, mas é por isso que foi mantida a Lei do Talião, "olho por olho, dente por dente" porque a lei "do o que se faz de errado se paga na proporção", estava ainda entranhada nas raízes do povo em formação. O povo de Israel precisava de leis para organizar a sua formação, mas elas não poderiam entrar em conflito com os seus costumes diários.


Assim, os sacríficios de animais para agradar aos deuses eram costumeiramente realizados pelos povos do mundo antigo, que acabaram estendendo à prática de sacrifício de crianças. Os primogênitos eram mais valiosos, e eram uma forma sublime de alcançar grandes bençãos.

O D'us de Israel usou o sacrifício e o derramamento de sangue dos povos pagãos para dar lições ao povo recém formado sobre REDENÇÃO.

A primeira grande lição que D'us quis dar à Israel sobre redenção foi a proposta à Abraão de sacrificar o seu primogênito e oferecê-lo em holocausto (Gênesis 22.2-12). A cultura pagã estava tão enraizada nele que não relutou em obedecer, muito menos Isaac, já um rapazinho, fugiu ou lutou contra o pai para não morrer. Os valores morais da época permitiam tal sacrifício sem condenação e D'us tinha que mudar isso, a começar pelos patriarcas, os fundadores da nação.
A mensagem era a seguinte: se os outros deuses obrigam vocês a dolorosamente sacrificar os seus primogênitos no fogo, Eu, o D'us de Israel, dou a opção de subtituir esse sacrifício por um animal macho, sem defeitos, também de grande valor, do seu rebanho.
Essa proposta de Redenção do D'us Único serviu de grande alívio para Israel, e muitos estrangeiros se aliaram ao povo por causa dela.

No mundo antigo era muito comum o hábito de se fazer votos que recaíam em sacrifícios de vidas humanas. Assim, em Israel, não se proibiu a lei do voto, mas passou-se a doar a D'us o valor estimado de uma pessoa (Voto de Holocausto - Levíticos 27.1) segundo a tabela dada acima. Um siclo nas versões cristãs ou um shekel na moeda do texto hebraico, vale cerca de 22,9 gramas de prata.

* em Gênesis 37. 28, usa-se o termo "Kessef", dinheiro ou peças de prata pagas pelos árabes por José. Continua nos dias 3 e 6 de setembro de 2010,
nos links: http://telahebraica.blogspot.com/2010/09/o-que-consistia-o-voto-de-jefte.html
e
http://telahebraica.blogspot.com/2010/09/o-voto-de-jefte-e-ana-conclusao-de.html

terça-feira, 6 de julho de 2010

O juramento "coloca a mão sob a minha coxa" e o Nervo Ciático de Jacó

O nervo ciático é o maior nervo do corpo humano, tendo o diâmetro aproximado de um dedo.
O versículo em questão (Gênesis 24.2):
וַיָּשֶׂם הָעֶבֶד אֶת-יָדוֹ תַּחַת יֶרֶךְ אַבְרָהָם אֲדֹנָיו
"E seu servo colocou a mão sob a coxa ( ierer') de Abraão (seu) senhor."

A palavra coxa יֶרֶךְ
também traduzida para extremo, extremidade ou parte posterior. É o mesmo radical usado em Gênesis 32.33 quando Jacó, lutando com um anjo, teve o nervo de sua coxa (ierer') deslocado.
No caso desse último, o nervo deslocado ("guid ha-nashe") trata-se do ciático, o maior da extremidade inferior, descendo pela parte anterior da perna.


O Nervo Ciático se origina nas regiões lombares (4ª e 5ª Vértebra Lombar) e sacral da medula espinhal. Fornece inervação motora e sensitiva para a extremidade inferior.
A ciática é uma dor na perna devido a irritação do nervo ciático. Essa dor geralmente sente-se desde a parte posterior da coxa até a parte posterior da panturrilha, e pode se estender até os quadris e os pés.
No mundo o antigo esse nervo já era bem conhecido pela sua importância e localização na anatomia humana, tanto que se fazia juramentos por ele. Se lesionado, o homem teria dificuldades de trabalhar, produzir e até ter relações sexuais dependendo da intensidade da dor.

Após o deslocamento de seu nervo ciático na luta contra um anjo em Gênesis 32.33, Jacó teve alguns incômodos:

Sintomas da Dor no Nervo Ciático:
A dor no nervo ciático geralmente afeta um lado do corpo. A dor pode ser sutil, aguda, como uma queimação ou acompanhada por choques intermitentes de dor aguda, começando nas nádegas e se prolongando para baixo por trás ou pelo lado da coxa e/ou perna. A dor no nervo ciático se estende até abaixo do joelho e pode ser sentida nos pés. Algumas vezes, os sintomas incluem formigamentos, dormências , parestesias (baixa sensibilidade) dificuldades de movimentação. Sentar ou tentar se levantar pode ser doloroso e difícil. Tossir e espirrar pode intensificar a dor.

Colocar a mão sob a coxa era uma forma usada para juramento (ver também em Gênesis 47.29, onde Jacó, velho e perto de morrer, pede para José fazê-lo). De acordo com o idioma bíblico as crianças saíam da "coxa" do pai ( Gênesis 46:26 "que emanaram da sua coxa"; Êxodo 1.5 ("almas que emanaram da coxa de Jacó "; Juízes 8:30) daí o termo "coxa" seria um eufemismo para o órgão procriador. Portanto, quem fazia o juramento teria que colocar a mão na virilha ou nas regiões próximas aos genitais do homem com quem ele fazia aliança.

Em algumas circunstâncias a virilidade do homem também era colocada em questão nesse juramento, por esta ser muito considerada no mundo antigo. Homens com muitos filhos eram considerados viris e em alguns casos isso era até mais importante que ter riquezas.

Pela questão cultural, as mulheres estéreis ficavam apavoradas por não poder provar a virilidade de seus maridos, tanto que foi um alívio para Sara quando Abraão teve um filho da escrava egípcia Hagar.

Entretanto esse juramento não tinha apenas conotação sexual, pois a passagem do nervo ciático nessa região e uma provável lesão nele poderia impedir de um homem trabalhar ou andar, o que era também uma grande maldição no mundo antigo.

Assim, a região da"coxa" de acordo com a tradição talmúdica, passou a ser o sinal sagrado da aliança, e o servo tinha que colocar a sua mão próximo a ela assim como em tempos posteriores uma promessa seria feita sobre um rolo de Torá (Shevuot38b; Targum Yonatan;Rashi).

Antes que a parte traseira de um animal possa ser comida, este nervo com todas as suas ramificações, era cuidadosamente removido (Gênesis 32.33). Uma vez que isso é muito difícil de fazer, os traseiros do gado não são usualmente consumidos pelos judeus.

Na luta contra o Anjo de D'us, com o seu nervo lesionado Jacó pode na verdade ter recebido uma benção por causa das referências na Torah do número de "almas que emanaram de sua coxa",
(Gênesis 46.26 e Êxodo 1.5).


Bibliografia:
http://www.vertebrata.com.br/nov_17.php

A Torá Viva; anotado por Rabino Aryeh Kaplan; Ed. Maayanot, 2ª ed.,2003.

Dicionário Português Hebraico e Hebraico Português - Abraham Hatzamri e Shoshana More-Hatzamri - ed. Sêfer

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Linguagem Bíblica do Mundo Antigo: O que significa "coloca a mão sob minha coxa"? (Gên 24.2)

picasaweb.google.com/.../YFTsKmyCuaUAHthi03j0rw Imagem: O servo de Abraão e Rebeca
Uma das características do texto bíblico hebraico é a riqueza de linguagem alegórica.
Existem bons exemplos nos livros de Ezequiel, Salmos e Profetas Menores.
Cantar de Cantares não se tornaria um livro canônico se não fosse entendido como uma alegoria sobre a relação de D'us e o seu povo.

Definição de Alegoria
Uma alegoria na interpretação bíblica busca um entendimento mais profundo por trás das imagens simbólicas. No relato, o seu significado está para ser descoberto.
Na definição de Heráclito no século I D.C.: "é uma palavra, frase, oração ou verso que diz uma coisa mas que significa outra". (Alegorias de Homero 5.2). Trifon, um precursor de Heráclito, foi ainda mais claro: "a alegoria é um enunciado, que se bem literalmente significa uma coisa, mas na realidade evoca outra. ( De Tropis 1.1).
A Parábola
A parábola é outro gênero literário comum na Bíblia que se distingue da alegoria por ser mais simples e incluir um relato que efetivamente poderia ter ocorrido. As parábolas podem ser desconcertantes. A diferença entre uma alegoria e uma parábola é que esta busca explicar ou ensinar mediante um relato ilustrativo e aquela usa linguagem simbólica até com objetos inanimados.

O vale de ossos secos em Ezequiel 37.1-14 é um exemplo de alegoria. É um relato surrealista de ossos muito secos, um profeta que fala e alguns acontecimentos de caráter sobrenatural que levam à ressurreição deles. No versículo 11:

"וַיֹּאמֶר אֵלַי בֶּן־אָדָם הָעֲצָמוֹת הָאֵלֶּה כָּל־בֵּית יִשְׂרָאֵל"

" E logo me disse: Filho do homem, estes ossos são o povo de Israel"

Portanto, num significado mais profundo, pode-se entender corretamente que o texto explica a restauração de Israel. Destaca assim que o que pode ser impossível acontecer, acontece. Se o relato textual estivesse de forma direta, como por exemplo: "Israel será restaurado após ser dado como extinto.", não traria o impacto, o despertar dos sentidos que a alegoria e a parábola buscam.

Um fato importante que traz algumas dificuldades nas interpretações: o uso de frases alegóricas de hábito comum do mundo antigo.
Assim como hoje usamos termos como "chutar o balde" ou "pisar na bola", que não devem ser entendidos literalmente, na linguagem hebréia vemos várias expressões de estilo do mundo antigo.
O versículo em questão ( Gênesis 24.2):
וַיָּשֶׂם הָעֶבֶד אֶת-יָדוֹ תַּחַת יֶרֶךְ אַבְרָהָם אֲדֹנָיו
"E seu servo colocou a mão sob a coxa ( ierer') de Abraão (seu) senhor."
A palavra coxa יֶרֶךְ
também traduzida para extremo, extremidade ou parte posterior é o mesmo radical usado em Gênesis 32.33 quando Jacó, lutando com um anjo, teve o nervo de sua coxa (ierer') deslocado.
No caso desse último, o nervo deslocado ("guid ha-nashe") trata-se do ciático, o maior da extremidade inferior, descendo pela parte anterior da perna.
Continua no post sobre o nervo ciático de Jacó.
Prof. Gláucia Vilela

sábado, 15 de maio de 2010

Porque existem diferenças entre as Bíblias Hebraica e Cristã?

Diferenças na Divisão

Na Bíblia Hebréia há uma divisão tripartida dos seus livros: Leis, Profetas e Escritos. No Antigo Testamento Cristão encontramos: Pentateuco, Livros Históricos, Poesia, Sabedoria e Profetas. A ordem exata se detalha na tabela:




Para os estudantes a linguagem das Escrituras Hebraicas, assim como a sua condição no Canon, desempenham um papel essencial para a Exegese. O idioma do corpus literário que é 99% hebraico e menos de 1% aramaico, é um motivo muito importante para se aprender o Hebraico Bíblico.

Existem algumas diferenças da Bíblia Hebraica entre os judeus e cristãos no conteúdo e na ordem dos livros. É por isso que ao se fazer a exegese da versão hebraica, nos deparamos com discrepâncias da versão cristã. Também resolvemos divergências de textos, como aconteceu no post sobre o Arrependimento de D'us.

Outra área de frequente dificuldade envolve os vários nomes de D'us. A convenção seguida pela Septuaginta é sempre traduzir o tetragrama como "Senhor", e El'him como "D'us". Isso no entanto, muitas vezes produz resultados de difícil entendimento. A seguir um exemplo:

Diferenças de Salmos 110.1-2

Versão cristã:

"Disse o Senhor (1) ao meu Senhor (2): Assenta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés. O Senhor (3) enviará de Sião o cetro da tua fortaleza; dominarás no meio dos teus inimigos."

(tradução baseada em João Ferreira de Almeida, Edição Contemporãnea, Editora Vida)

Não conseguimos definir claramente aqui quem é quem no Senhor 1,2 e 3. Não sabemos definir também se o Senhor 3 se refere ao 1 ou ao 2 do versículo anterior.

Versão Judaica:

" As palavras do Senhor(1): Ao Meu mestre(2), espera à Minha direita; até que Eu faça de teus inimigos um escabelo para teus pés. O pão de tua força o Senhor(3) enviará de Sião. Governa entre teus inimigos!"

(Tradução de Adolpho Wasserman e Chaim Szwertszarf em "Tehilim" , McKlausen Editora)

Embora não seja uma tradução literal, pelo menos é contextualizada, nos dá uma noção de diferenças de pessoas, pois o Tetragrama não é traduzido nas duas. Assim, 1 refere-se ao Tetragrama, 2 à Adonai (literalmente 'Senhor') e 3 ao Tetragrama. Conseguimos compreender assim que o Senhor número 3 é a mesma pessoa do 1 e que está em hierarquia de poder superior ao 2.

Causas das diferenças nos Textos


O judaísmo contemporâneo deriva do movimento farisaico, que teve dois principais centros de estudos: Palestino e Babilônico. A literatura religiosa que veio dessa época está toda escrita sobre o texto hebraico e aramaico. Estas comunidades, palestina e babilônia, utilizaram a versão hebréia da Bíblia, conhecida mais tarde como Texto Massorético.

A religião irmã do judaísmo, o cristianismo, não estava centrado na etnia, mas acolhia os adeptos de todas as nações. Dada a rápida difusão do cristianismo no mundo de fala grega, é lógico que foi mais fácil o uso do texto bíblico em grego. Assim, foi difundida a escrita Septuaginta (LXX), que de acordo com a tradição, foi traduzida por 70 eruditos judeus. O Talmud da Babilônia comenta sobre 72 anciãos que traduziram a Torah de forma independente, sem nenhum tipo de diferença. Seja qual for a verdade que se esconde nessa tradição, a sessão da Torah na Septuaginta é uma das melhores traduções. A maioria dos estudiosos acham que a Torah foi traduzida ao grego por volta do século III a.C. e os demais livros, nos séculos seguintes.

Inicialmente, a Septuaginta contribuiu para que numerosos judeus de fala grega da Diáspora, como os de Alexandria no Egito, pudessem ser capazes de ler o texto bíblico. Entretanto, uma grande redução da população judia no mundo de fala grega e o uso da Septuaginta pelos cristãos no séculos II fizeram com que lentamente esta se tornasse parte da Bíblia cristã.

Nos agitos do cristianismo, a Septuaginta cumpriu o papel muito importante, mais que o Texto Massorético. Numa generalização histórica, podemos dizer que os precursores do judaísmo moderno utilizaram o Texto Massorético, enquanto no cristianismo, a Septuaginta desempenhou um papel mais destacado.

O uso do Texto Massorético e o da Septuaginta, respectivamente, pelo judaísmo e pelo cristianismo é o motivo da diferença na atual ordem dos livro canônicos, o que se reflete também nas traduções em português. Porém, o conteúdo geral é o mesmo.

Bibligrafia:

Stefan Bosman; The Biblical Hebrew team; ClassicalHebrew Newsletter.

A Torá Viva; anotado por Rabino Aryeh Kaplan; Ed. Maayanot, 2ª ed.,2003.

Estudos Linguísticos do Hebraico Bíblico: Prof. ª Gláucia Vilela.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Deus se arrepende?


Os sentimentos de D'us funcionam de forma diferente dos do homem.

Os sentimentos do homem são distorcidos pelo pecado, isto é, quando ele sente, pode agir de forma contrária do que está sentindo. Já os sentimentos de D'us são tão puros e genuínos que se aproximam da ação, ou melhor, quando Ele sente, já está agindo simultaneamente de acordo com aquele sentimento.
Então quando vemos na Bíblia que D'us lembrou de Noah no dilúvio (mas Ele esquece?), que descansou no sétimo dia (mas Ele fica cansado?), ou que se arrependeu de criar o homem, temos outra dinâmica. Quer dizer que está realizando UMA AÇÃO.
O homem, por causa da queda, pode desvincular o seu sentimento da ação, mas para D'us, por causa de Sua sublime Santidade que envolve também sublime sinceridade, todo sentimento é ação, movimento.

Isso nos dá um sinal do que é realmente santidade.
Quanto mais santo o homem for, mais as suas atitudes condizem com os seus sentimentos, sem dissimulação. Então quando D'us fala: "Sede santos, como Eu sou Santo." está dizendo também:
"Sede sinceros, como Eu sou sincero".

Enfim, quando D'us:

1.Descansou, verbo "shavat" em hebraico (Gênesis 2.2), Ele cessou o processo criativo.
2.Se lembrou de Noah (Gênesis 8.1) Ele "deu uma atenção especial a ele"naquele momento.
3.Quando derrama a sua ira, já está agindo para a destruição e quando abençoa já está atendendo às necessidades do justo.

A dificuldade de se entender o arrependimento de D'us é que existem dois textos que a princípio são contraditórios:

Gênesis 6.6: "D'us se arrependeu de ter feito o homem na terra."
וַיִּנָּחֶם יְהוָה, כִּי-עָשָׂה אֶת-הָאָדָם בָּאָרֶץ Números 23.19: "(D'us) não é humano para ser falso, nem mortal para que Ele se arrependa".
לֹא אִישׁ אֵל וִיכַזֵּב, וּבֶן-אָדָם וְיִתְנֶחָם
O problema dos textos acima está na tradução. Às vezes, o tradutor com o intuito de ajudar o entendimento, coloca um pouco de sua interpretação. Falaremos rapidamente sobre isso no próximo post, sobre as diferenças das traduções hebraicas das cristãs.
Mas sem a ajuda do hebraico podemos eliminar a dificuldade dos textos apenas com o CONTEXTO. Enquanto no texto de Gênesis 6.6 vemos um relato de fatos históricos de Israel pelo o autor do livro ( citado pelos judeus como Moisés), a frase do versículo de Números 23.19 foi dita por Balaão, uma pessoa altamente dissimulada, com altos e baixos de espiritualidade.
Balaão até desejou ser portador da palavra de D'us, mas titubeou várias vezes se deixando levar pela vaidade e pela ansiedade. A vaidade surgiu quando chegou a segunda comitiva de Barak, maior e mais honrada (Números 22.15). A irritação de D'us com Balaão em Números 22.22 se deve à sua ansiedade. No texto da Torá Viva anotada por Rabino Aryeh Kaplan:
"D'us manifestou irritação (porque Bil'am estava tão ansioso para ir) e um anjo de D'us plantou-se na estrada para se opor a ele."
Ao chegar até Barak, Balaão passou a misturar a mensagem de D'us com as suas próprias idéias, fazendo assim um jogo de palavras para agradar a todos.
Exegese dos textos:
Enquanto em Gênesis 6.6 vemos no hebraico um sujeito para uma ação, isto é, D'us (sujeito) se arrependeu (ação), em Números 23.19 não há sujeito.
O texto original é assim:
"O que D'us declarou?" perguntou Balak.
(Balaão)Proclamou o seu oráculo e disse: "Levanta, Balak, e ouve: presta bem atenção à minha visão, filho de Tsipor." Não é humano para que ele seja falso, nem mortal para se arrepender (ou mudar de pensamento)".
Ou seja, Balaão trabalhou com as palavras de tal forma que omitiu o sujeito para Balak subentender que ele estava falando de D'us. Na verdade ele teve muito medo de mencionar o Santo Nome divino porque teve uma mistura de sentimentos.
As nossas traduções mencionam o Nome de D'us onde não tem, porque é muito comum no texto hebraico bíblico o sujeito ser omitido, estando "escondido" no verbo.
O homem se arrepende de uma ação que cometeu no passado. O arrependimento de D'us já está concluído e paira na Eternidade, porque como já estudamos, Ele é Onipresente e vive simultaneamente no passado, presente e futuro. Em Gênesis 6.6 D'us mudou a sua atitute em relação ao Homem.
Portanto, enquanto no seu arrependimento o homem pode ou não mudar de atitude, o arrependimento de D'us é genuíno, mudando Ele definitivamente de uma ação para outra.

Obs: o verbo hebraico para "arrepender-se" inserido nos dois textos contraditórios (Gênesis 6.6 X Números 23.19) é o mesmo, a diferença está em quem está dizendo. No primeiro, o inspirado autor de Gênesis, no segundo, o dissimulado Balaão.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Pessach Casher ve-Sameach!

Hoje,15 de nissan, 29 de março de 2010, toda a nação judaica inicia à noite, o primeiro seder de Pessach, (do hebraico פסח, significa Passagem) cujos os preparativos já começaram no pôr do sol de ontem (após 18:25hs).
Domingo foi a tradicional limpeza da casa com a busca do Châmets (pães, biscoitos, macarrões, teoricamente tudo o que leva trigo, cevada, aveia, centeio e seus derivados e que foram deixados fermentados).
Durante os oito dias de Pessach somente se pode consumir matzá, que são pães sem fermentação.
A saída do Egito deveria ser tão apressada, que esperar a fermentação dos pães seria um embargo para os hebreus. Assim, o fermento em Pessach simboliza um atraso para a libertação da escravidão.
Pessach Casher ve-Sameach, uma feliz Passagem à recordação da libertação de Israel a todos,
e que sejam retirados os obstáculos à Santidade de nossas vidas!