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sábado, 15 de maio de 2010

Porque existem diferenças entre as Bíblias Hebraica e Cristã?

Diferenças na Divisão

Na Bíblia Hebréia há uma divisão tripartida dos seus livros: Leis, Profetas e Escritos. No Antigo Testamento Cristão encontramos: Pentateuco, Livros Históricos, Poesia, Sabedoria e Profetas. A ordem exata se detalha na tabela:




Para os estudantes a linguagem das Escrituras Hebraicas, assim como a sua condição no Canon, desempenham um papel essencial para a Exegese. O idioma do corpus literário que é 99% hebraico e menos de 1% aramaico, é um motivo muito importante para se aprender o Hebraico Bíblico.

Existem algumas diferenças da Bíblia Hebraica entre os judeus e cristãos no conteúdo e na ordem dos livros. É por isso que ao se fazer a exegese da versão hebraica, nos deparamos com discrepâncias da versão cristã. Também resolvemos divergências de textos, como aconteceu no post sobre o Arrependimento de D'us.

Outra área de frequente dificuldade envolve os vários nomes de D'us. A convenção seguida pela Septuaginta é sempre traduzir o tetragrama como "Senhor", e El'him como "D'us". Isso no entanto, muitas vezes produz resultados de difícil entendimento. A seguir um exemplo:

Diferenças de Salmos 110.1-2

Versão cristã:

"Disse o Senhor (1) ao meu Senhor (2): Assenta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés. O Senhor (3) enviará de Sião o cetro da tua fortaleza; dominarás no meio dos teus inimigos."

(tradução baseada em João Ferreira de Almeida, Edição Contemporãnea, Editora Vida)

Não conseguimos definir claramente aqui quem é quem no Senhor 1,2 e 3. Não sabemos definir também se o Senhor 3 se refere ao 1 ou ao 2 do versículo anterior.

Versão Judaica:

" As palavras do Senhor(1): Ao Meu mestre(2), espera à Minha direita; até que Eu faça de teus inimigos um escabelo para teus pés. O pão de tua força o Senhor(3) enviará de Sião. Governa entre teus inimigos!"

(Tradução de Adolpho Wasserman e Chaim Szwertszarf em "Tehilim" , McKlausen Editora)

Embora não seja uma tradução literal, pelo menos é contextualizada, nos dá uma noção de diferenças de pessoas, pois o Tetragrama não é traduzido nas duas. Assim, 1 refere-se ao Tetragrama, 2 à Adonai (literalmente 'Senhor') e 3 ao Tetragrama. Conseguimos compreender assim que o Senhor número 3 é a mesma pessoa do 1 e que está em hierarquia de poder superior ao 2.

Causas das diferenças nos Textos


O judaísmo contemporâneo deriva do movimento farisaico, que teve dois principais centros de estudos: Palestino e Babilônico. A literatura religiosa que veio dessa época está toda escrita sobre o texto hebraico e aramaico. Estas comunidades, palestina e babilônia, utilizaram a versão hebréia da Bíblia, conhecida mais tarde como Texto Massorético.

A religião irmã do judaísmo, o cristianismo, não estava centrado na etnia, mas acolhia os adeptos de todas as nações. Dada a rápida difusão do cristianismo no mundo de fala grega, é lógico que foi mais fácil o uso do texto bíblico em grego. Assim, foi difundida a escrita Septuaginta (LXX), que de acordo com a tradição, foi traduzida por 70 eruditos judeus. O Talmud da Babilônia comenta sobre 72 anciãos que traduziram a Torah de forma independente, sem nenhum tipo de diferença. Seja qual for a verdade que se esconde nessa tradição, a sessão da Torah na Septuaginta é uma das melhores traduções. A maioria dos estudiosos acham que a Torah foi traduzida ao grego por volta do século III a.C. e os demais livros, nos séculos seguintes.

Inicialmente, a Septuaginta contribuiu para que numerosos judeus de fala grega da Diáspora, como os de Alexandria no Egito, pudessem ser capazes de ler o texto bíblico. Entretanto, uma grande redução da população judia no mundo de fala grega e o uso da Septuaginta pelos cristãos no séculos II fizeram com que lentamente esta se tornasse parte da Bíblia cristã.

Nos agitos do cristianismo, a Septuaginta cumpriu o papel muito importante, mais que o Texto Massorético. Numa generalização histórica, podemos dizer que os precursores do judaísmo moderno utilizaram o Texto Massorético, enquanto no cristianismo, a Septuaginta desempenhou um papel mais destacado.

O uso do Texto Massorético e o da Septuaginta, respectivamente, pelo judaísmo e pelo cristianismo é o motivo da diferença na atual ordem dos livro canônicos, o que se reflete também nas traduções em português. Porém, o conteúdo geral é o mesmo.

Bibligrafia:

Stefan Bosman; The Biblical Hebrew team; ClassicalHebrew Newsletter.

A Torá Viva; anotado por Rabino Aryeh Kaplan; Ed. Maayanot, 2ª ed.,2003.

Estudos Linguísticos do Hebraico Bíblico: Prof. ª Gláucia Vilela.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Deus se arrepende?


Os sentimentos de D'us funcionam de forma diferente dos do homem.

Os sentimentos do homem são distorcidos pelo pecado, isto é, quando ele sente, pode agir de forma contrária do que está sentindo. Já os sentimentos de D'us são tão puros e genuínos que se aproximam da ação, ou melhor, quando Ele sente, já está agindo simultaneamente de acordo com aquele sentimento.
Então quando vemos na Bíblia que D'us lembrou de Noah no dilúvio (mas Ele esquece?), que descansou no sétimo dia (mas Ele fica cansado?), ou que se arrependeu de criar o homem, temos outra dinâmica. Quer dizer que está realizando UMA AÇÃO.
O homem, por causa da queda, pode desvincular o seu sentimento da ação, mas para D'us, por causa de Sua sublime Santidade que envolve também sublime sinceridade, todo sentimento é ação, movimento.

Isso nos dá um sinal do que é realmente santidade.
Quanto mais santo o homem for, mais as suas atitudes condizem com os seus sentimentos, sem dissimulação. Então quando D'us fala: "Sede santos, como Eu sou Santo." está dizendo também:
"Sede sinceros, como Eu sou sincero".

Enfim, quando D'us:

1.Descansou, verbo "shavat" em hebraico (Gênesis 2.2), Ele cessou o processo criativo.
2.Se lembrou de Noah (Gênesis 8.1) Ele "deu uma atenção especial a ele"naquele momento.
3.Quando derrama a sua ira, já está agindo para a destruição e quando abençoa já está atendendo às necessidades do justo.

A dificuldade de se entender o arrependimento de D'us é que existem dois textos que a princípio são contraditórios:

Gênesis 6.6: "D'us se arrependeu de ter feito o homem na terra."
וַיִּנָּחֶם יְהוָה, כִּי-עָשָׂה אֶת-הָאָדָם בָּאָרֶץ Números 23.19: "(D'us) não é humano para ser falso, nem mortal para que Ele se arrependa".
לֹא אִישׁ אֵל וִיכַזֵּב, וּבֶן-אָדָם וְיִתְנֶחָם
O problema dos textos acima está na tradução. Às vezes, o tradutor com o intuito de ajudar o entendimento, coloca um pouco de sua interpretação. Falaremos rapidamente sobre isso no próximo post, sobre as diferenças das traduções hebraicas das cristãs.
Mas sem a ajuda do hebraico podemos eliminar a dificuldade dos textos apenas com o CONTEXTO. Enquanto no texto de Gênesis 6.6 vemos um relato de fatos históricos de Israel pelo o autor do livro ( citado pelos judeus como Moisés), a frase do versículo de Números 23.19 foi dita por Balaão, uma pessoa altamente dissimulada, com altos e baixos de espiritualidade.
Balaão até desejou ser portador da palavra de D'us, mas titubeou várias vezes se deixando levar pela vaidade e pela ansiedade. A vaidade surgiu quando chegou a segunda comitiva de Barak, maior e mais honrada (Números 22.15). A irritação de D'us com Balaão em Números 22.22 se deve à sua ansiedade. No texto da Torá Viva anotada por Rabino Aryeh Kaplan:
"D'us manifestou irritação (porque Bil'am estava tão ansioso para ir) e um anjo de D'us plantou-se na estrada para se opor a ele."
Ao chegar até Barak, Balaão passou a misturar a mensagem de D'us com as suas próprias idéias, fazendo assim um jogo de palavras para agradar a todos.
Exegese dos textos:
Enquanto em Gênesis 6.6 vemos no hebraico um sujeito para uma ação, isto é, D'us (sujeito) se arrependeu (ação), em Números 23.19 não há sujeito.
O texto original é assim:
"O que D'us declarou?" perguntou Balak.
(Balaão)Proclamou o seu oráculo e disse: "Levanta, Balak, e ouve: presta bem atenção à minha visão, filho de Tsipor." Não é humano para que ele seja falso, nem mortal para se arrepender (ou mudar de pensamento)".
Ou seja, Balaão trabalhou com as palavras de tal forma que omitiu o sujeito para Balak subentender que ele estava falando de D'us. Na verdade ele teve muito medo de mencionar o Santo Nome divino porque teve uma mistura de sentimentos.
As nossas traduções mencionam o Nome de D'us onde não tem, porque é muito comum no texto hebraico bíblico o sujeito ser omitido, estando "escondido" no verbo.
O homem se arrepende de uma ação que cometeu no passado. O arrependimento de D'us já está concluído e paira na Eternidade, porque como já estudamos, Ele é Onipresente e vive simultaneamente no passado, presente e futuro. Em Gênesis 6.6 D'us mudou a sua atitute em relação ao Homem.
Portanto, enquanto no seu arrependimento o homem pode ou não mudar de atitude, o arrependimento de D'us é genuíno, mudando Ele definitivamente de uma ação para outra.

Obs: o verbo hebraico para "arrepender-se" inserido nos dois textos contraditórios (Gênesis 6.6 X Números 23.19) é o mesmo, a diferença está em quem está dizendo. No primeiro, o inspirado autor de Gênesis, no segundo, o dissimulado Balaão.