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Postagem em Destaque

Quem foi Balaão? Bamidbar 22.2 a 25.9 (Parashá Balak)

´ Balaão era midianita,isto é, descendente de um povo gerado pelo casamento de Abraão com Keturá (Gênesis 25.1). Midian se tornou um...

sábado, 15 de maio de 2010

Porque existem diferenças entre as Bíblias Hebraica e Cristã?

Diferenças na Divisão

Na Bíblia Hebréia há uma divisão tripartida dos seus livros: Leis, Profetas e Escritos. No Antigo Testamento Cristão encontramos: Pentateuco, Livros Históricos, Poesia, Sabedoria e Profetas. A ordem exata se detalha na tabela:




Para os estudantes a linguagem das Escrituras Hebraicas, assim como a sua condição no Canon, desempenham um papel essencial para a Exegese. O idioma do corpus literário que é 99% hebraico e menos de 1% aramaico, é um motivo muito importante para se aprender o Hebraico Bíblico.

Existem algumas diferenças da Bíblia Hebraica entre os judeus e cristãos no conteúdo e na ordem dos livros. É por isso que ao se fazer a exegese da versão hebraica, nos deparamos com discrepâncias da versão cristã. Também resolvemos divergências de textos, como aconteceu no post sobre o Arrependimento de D'us.

Outra área de frequente dificuldade envolve os vários nomes de D'us. A convenção seguida pela Septuaginta é sempre traduzir o tetragrama como "Senhor", e El'him como "D'us". Isso no entanto, muitas vezes produz resultados de difícil entendimento. A seguir um exemplo:

Diferenças de Salmos 110.1-2

Versão cristã:

"Disse o Senhor (1) ao meu Senhor (2): Assenta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés. O Senhor (3) enviará de Sião o cetro da tua fortaleza; dominarás no meio dos teus inimigos."

(tradução baseada em João Ferreira de Almeida, Edição Contemporãnea, Editora Vida)

Não conseguimos definir claramente aqui quem é quem no Senhor 1,2 e 3. Não sabemos definir também se o Senhor 3 se refere ao 1 ou ao 2 do versículo anterior.

Versão Judaica:

" As palavras do Senhor(1): Ao Meu mestre(2), espera à Minha direita; até que Eu faça de teus inimigos um escabelo para teus pés. O pão de tua força o Senhor(3) enviará de Sião. Governa entre teus inimigos!"

(Tradução de Adolpho Wasserman e Chaim Szwertszarf em "Tehilim" , McKlausen Editora)

Embora não seja uma tradução literal, pelo menos é contextualizada, nos dá uma noção de diferenças de pessoas, pois o Tetragrama não é traduzido nas duas. Assim, 1 refere-se ao Tetragrama, 2 à Adonai (literalmente 'Senhor') e 3 ao Tetragrama. Conseguimos compreender assim que o Senhor número 3 é a mesma pessoa do 1 e que está em hierarquia de poder superior ao 2.

Causas das diferenças nos Textos


O judaísmo contemporâneo deriva do movimento farisaico, que teve dois principais centros de estudos: Palestino e Babilônico. A literatura religiosa que veio dessa época está toda escrita sobre o texto hebraico e aramaico. Estas comunidades, palestina e babilônia, utilizaram a versão hebréia da Bíblia, conhecida mais tarde como Texto Massorético.

A religião irmã do judaísmo, o cristianismo, não estava centrado na etnia, mas acolhia os adeptos de todas as nações. Dada a rápida difusão do cristianismo no mundo de fala grega, é lógico que foi mais fácil o uso do texto bíblico em grego. Assim, foi difundida a escrita Septuaginta (LXX), que de acordo com a tradição, foi traduzida por 70 eruditos judeus. O Talmud da Babilônia comenta sobre 72 anciãos que traduziram a Torah de forma independente, sem nenhum tipo de diferença. Seja qual for a verdade que se esconde nessa tradição, a sessão da Torah na Septuaginta é uma das melhores traduções. A maioria dos estudiosos acham que a Torah foi traduzida ao grego por volta do século III a.C. e os demais livros, nos séculos seguintes.

Inicialmente, a Septuaginta contribuiu para que numerosos judeus de fala grega da Diáspora, como os de Alexandria no Egito, pudessem ser capazes de ler o texto bíblico. Entretanto, uma grande redução da população judia no mundo de fala grega e o uso da Septuaginta pelos cristãos no séculos II fizeram com que lentamente esta se tornasse parte da Bíblia cristã.

Nos agitos do cristianismo, a Septuaginta cumpriu o papel muito importante, mais que o Texto Massorético. Numa generalização histórica, podemos dizer que os precursores do judaísmo moderno utilizaram o Texto Massorético, enquanto no cristianismo, a Septuaginta desempenhou um papel mais destacado.

O uso do Texto Massorético e o da Septuaginta, respectivamente, pelo judaísmo e pelo cristianismo é o motivo da diferença na atual ordem dos livro canônicos, o que se reflete também nas traduções em português. Porém, o conteúdo geral é o mesmo.

Bibligrafia:

Stefan Bosman; The Biblical Hebrew team; ClassicalHebrew Newsletter.

A Torá Viva; anotado por Rabino Aryeh Kaplan; Ed. Maayanot, 2ª ed.,2003.

Estudos Linguísticos do Hebraico Bíblico: Prof. ª Gláucia Vilela.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Deus se arrepende?


Os sentimentos de D'us funcionam de forma diferente dos do homem.

Os sentimentos do homem são distorcidos pelo pecado, isto é, quando ele sente, pode agir de forma contrária do que está sentindo. Já os sentimentos de D'us são tão puros e genuínos que se aproximam da ação, ou melhor, quando Ele sente, já está agindo simultaneamente de acordo com aquele sentimento.
Então quando vemos na Bíblia que D'us lembrou de Noah no dilúvio (mas Ele esquece?), que descansou no sétimo dia (mas Ele fica cansado?), ou que se arrependeu de criar o homem, temos outra dinâmica. Quer dizer que está realizando UMA AÇÃO.
O homem, por causa da queda, pode desvincular o seu sentimento da ação, mas para D'us, por causa de Sua sublime Santidade que envolve também sublime sinceridade, todo sentimento é ação, movimento.

Isso nos dá um sinal do que é realmente santidade.
Quanto mais santo o homem for, mais as suas atitudes condizem com os seus sentimentos, sem dissimulação. Então quando D'us fala: "Sede santos, como Eu sou Santo." está dizendo também:
"Sede sinceros, como Eu sou sincero".

Enfim, quando D'us:

1.Descansou, verbo "shavat" em hebraico (Gênesis 2.2), Ele cessou o processo criativo.
2.Se lembrou de Noah (Gênesis 8.1) Ele "deu uma atenção especial a ele"naquele momento.
3.Quando derrama a sua ira, já está agindo para a destruição e quando abençoa já está atendendo às necessidades do justo.

A dificuldade de se entender o arrependimento de D'us é que existem dois textos que a princípio são contraditórios:

Gênesis 6.6: "D'us se arrependeu de ter feito o homem na terra."
וַיִּנָּחֶם יְהוָה, כִּי-עָשָׂה אֶת-הָאָדָם בָּאָרֶץ Números 23.19: "(D'us) não é humano para ser falso, nem mortal para que Ele se arrependa".
לֹא אִישׁ אֵל וִיכַזֵּב, וּבֶן-אָדָם וְיִתְנֶחָם
O problema dos textos acima está na tradução. Às vezes, o tradutor com o intuito de ajudar o entendimento, coloca um pouco de sua interpretação. Falaremos rapidamente sobre isso no próximo post, sobre as diferenças das traduções hebraicas das cristãs.
Mas sem a ajuda do hebraico podemos eliminar a dificuldade dos textos apenas com o CONTEXTO. Enquanto no texto de Gênesis 6.6 vemos um relato de fatos históricos de Israel pelo o autor do livro ( citado pelos judeus como Moisés), a frase do versículo de Números 23.19 foi dita por Balaão, uma pessoa altamente dissimulada, com altos e baixos de espiritualidade.
Balaão até desejou ser portador da palavra de D'us, mas titubeou várias vezes se deixando levar pela vaidade e pela ansiedade. A vaidade surgiu quando chegou a segunda comitiva de Barak, maior e mais honrada (Números 22.15). A irritação de D'us com Balaão em Números 22.22 se deve à sua ansiedade. No texto da Torá Viva anotada por Rabino Aryeh Kaplan:
"D'us manifestou irritação (porque Bil'am estava tão ansioso para ir) e um anjo de D'us plantou-se na estrada para se opor a ele."
Ao chegar até Barak, Balaão passou a misturar a mensagem de D'us com as suas próprias idéias, fazendo assim um jogo de palavras para agradar a todos.
Exegese dos textos:
Enquanto em Gênesis 6.6 vemos no hebraico um sujeito para uma ação, isto é, D'us (sujeito) se arrependeu (ação), em Números 23.19 não há sujeito.
O texto original é assim:
"O que D'us declarou?" perguntou Balak.
(Balaão)Proclamou o seu oráculo e disse: "Levanta, Balak, e ouve: presta bem atenção à minha visão, filho de Tsipor." Não é humano para que ele seja falso, nem mortal para se arrepender (ou mudar de pensamento)".
Ou seja, Balaão trabalhou com as palavras de tal forma que omitiu o sujeito para Balak subentender que ele estava falando de D'us. Na verdade ele teve muito medo de mencionar o Santo Nome divino porque teve uma mistura de sentimentos.
As nossas traduções mencionam o Nome de D'us onde não tem, porque é muito comum no texto hebraico bíblico o sujeito ser omitido, estando "escondido" no verbo.
O homem se arrepende de uma ação que cometeu no passado. O arrependimento de D'us já está concluído e paira na Eternidade, porque como já estudamos, Ele é Onipresente e vive simultaneamente no passado, presente e futuro. Em Gênesis 6.6 D'us mudou a sua atitute em relação ao Homem.
Portanto, enquanto no seu arrependimento o homem pode ou não mudar de atitude, o arrependimento de D'us é genuíno, mudando Ele definitivamente de uma ação para outra.

Obs: o verbo hebraico para "arrepender-se" inserido nos dois textos contraditórios (Gênesis 6.6 X Números 23.19) é o mesmo, a diferença está em quem está dizendo. No primeiro, o inspirado autor de Gênesis, no segundo, o dissimulado Balaão.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Pessach Casher ve-Sameach!

Hoje,15 de nissan, 29 de março de 2010, toda a nação judaica inicia à noite, o primeiro seder de Pessach, (do hebraico פסח, significa Passagem) cujos os preparativos já começaram no pôr do sol de ontem (após 18:25hs).
Domingo foi a tradicional limpeza da casa com a busca do Châmets (pães, biscoitos, macarrões, teoricamente tudo o que leva trigo, cevada, aveia, centeio e seus derivados e que foram deixados fermentados).
Durante os oito dias de Pessach somente se pode consumir matzá, que são pães sem fermentação.
A saída do Egito deveria ser tão apressada, que esperar a fermentação dos pães seria um embargo para os hebreus. Assim, o fermento em Pessach simboliza um atraso para a libertação da escravidão.
Pessach Casher ve-Sameach, uma feliz Passagem à recordação da libertação de Israel a todos,
e que sejam retirados os obstáculos à Santidade de nossas vidas!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Judá e o pecado que matou Onan (conclusão)

sodahead.com
Após a venda de José aos mercadores, Judá resolveu se afastar, isolando-se em Adulam
(Gênesis 38).
Em Bereshit se começa a contar a saga de José no capítulo 37, tendo uma breve interrupção no capítulo 38, para se contar um fato da família de Judá, importante para a compreensão de todo o contexto da história de Israel.

Para onde Judá foi?
Adulão ou Adulam é uma cidade muito antiga, símbolo de fuga e refúgio (Miquéias 1.15) por causa de suas muitas cavernas nas colinas de pedra calcária, existentes nos subúrbios da povoação. Foi sede de um rei cananeu ferido por Josué (Josué 12. 7 e 15), após a conquista, tornou-se uma cidade da tribo de Judá (Josué 15. 21 e 35).

As cavernas de Adulam ficaram famosas após refugiarem o rei David, fugido de Saul (I Samuel 22.1-2), seus familiares e um exército de quatrocentos homens "amargurados de espírito".

Vários episódios no Tanach ocorreram em Adulão (II Samuel 23.13) que depois foi reforçada por Roboão, rei de Judá (II Crônicas 11.5, 7 e 11-12)), virando uma fortaleza com comandantes, armazens de comida, azeite, vinho e armamentos: "... e as fortificou grandemente." (v.12), protegendo e sendo sujeita a Judá e Benjamim.
Adulam após o cativeiro babilônico refugiou os judeus em seu retorno para Jerusalém (Neemias 11.1- 2 e 30).
Atualmente ainda há muitas cavernas nos montes de pedra calcária nessa área que agora
chama-se Aid-el-Ma. Fica a sudoeste de Jerusalém.

Judá "amargurado de espírito" pelo destino de José, afastou-se de seus irmãos carregando a candidatura à Primogenitura.

Ao conhecer a *filha de um "mercador" cananita, chamado Shua, casou-se com ela e teve três filhos. O erro de Judá de se casar com uma cananita foi corrigido pelo próprio D'us, que fez com que morresse o seu primogênito Er porque era mal (Gênesis 38.6), deixando viúva Tamar, noiva
íntegra -"seu nome era Tamar" Gênesis 38.6 -escolhida por Judá. O comportamento mortal de Er não foi especificamente mencionado no texto bíblico, mas temos algumas pistas:

1. Se Judá recebesse a Primogenitura de seu pai Jacó, se tornaria muito rico, e consequentemente, o seu primogênito Er, herdaria as riquezas de Israel;

2. Ao casar-se com uma mulher cananita, Judá desviaria as riquezas de Israel para um povo estranho, enfraquecendo a recém inaugurada nação;

3. Tamar não era estéril, e há razões para entendermos que a mulher de Judá influenciou Er a não ter filhos com ela por ganância, para que as riquezas de Israel ficasse com o seu povo; assim o próprio D'us tomou as providências de fazê-lo morrer,

4. A lei do dever de cunhado (Deuteronômio 25.5-6) foi aplicada no segundo filho de Judá, Onan, que teria que apenas fecundar Tamar numa única relação sexual, segundo a tradição da época, de forma fria e "regada à manteiga" para não ferir a honra do morto.

O pecado que matou Onan

Ocorreram várias relacões entre Tamar e Onan porque este secretamente deixava a sua semente cair na terra para evitar que ela tivesse um filho. Onan não queria ter filhos com Tamar pois teria consequentemente que dividir a herança de Judá por três**.

Se não houvesse um filho para Er, a herança seria dividida apenas entre ele e Selá, portanto, o pecado que matou Onan foi a cobiça por dinheiro e não o ato de derramar a sua semente na terra como muitos pregam.***


* o nome dela não é mencionado; há uma forte tradição no Talmud, que quando o nome de uma pessoa não é mencionado é porque não é de boa índole; de forma contrária, quando é usado na Bíblia o termo "por nome....", anuncia um indíviduo íntegro e bom; um exemplo, o parente próximo de Noemi, cuja ganância era tão grande, que não fez o resgate que lhe cabia, sendo o seu nome omitido: traduzido em algumas versões como"fulano" ,Rute4.1.

** Segundo algumas fontes judaicas (Tsava'at Yehudá 10.1; Yov'lot 41.1), a mulher de Judá
não queria que Onan tivesse filhos de Tamar.

*** muitas discussões sobre controle de natalidade e masturbação surgiram desse texto, mas o foco de Gênesis 38 não é esse; este capítulo destaca a preocupação de D'us em não permitir que o povo de Israel se casasse com mulheres cananitas; mais tarde, a própria mulher de Judá morreu, dando abertura à ação de Tamar para garantir genealogia e herança em Israel; dos gêmeos que ela teve, Perez foi o ancestral de David.
Prof.ª Gláucia Vilela
Fonte:
A Torá Viva; anotado por Rabino Aryeh Kaplan; Ed. Maayanot, 2ª ed.,2003Dicionário Bíblico -Editora Didática Paulista, SP.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Quem recebeu a Primogenitura de Israel: Judá ou José?

Em Gênesis 48.5 Jacó colocou Efraim e Manassés, filhos mais novo e mais velho de José, respectivamente, no lugar de Rúben e Simeão:

"Agora, pois, os teus dois filhos, que te nasceram na terra do Egito, antes que eu viesse a ti no Egito, são meus; Efraim e Manassés serão meus, como Rúben e Simeão."

E em I Crônicas 5.1-2, um Livro histórico, vemos:

"Quanto aos filhos de Rúben, o primogênito de Israel (porque ele era o primogênito, mas, porque profanara a cama de seu pai, deu-se a sua primogenitura aos filhos de José, filho de Israel; para assim não ser contado na genealogia da primogenitura. Porque Judá foi poderoso entre seus irmãos, e dele provém o príncipe; porém a primogenitura foi de José).

Enquanto José vivia com a sua família, havia a ameaça dele receber a Primogenitura pelas leis do mundo antigo, apesar de ser o mais novo:

"Um filho mais moço de uma primeira mulher e um mais velho de uma segunda mulher, podem dar lugar à dúvida sobre a maneira de se fazer a partilha." (artigo 539 do capítulo XX, do Nono livro de Manu)

Quando Jacó apresentou sinais de dar a José esse direito ao lhe presentear com a *túnica real (Gênesis 37.3), costumeiramente recebida pelo príncipe herdeiro, os seus demais ficaram furiosos:
"Então lhe disseram seus irmãos: Tu, pois deveras reinarás sobre nós? Tu deveras terás domínio
sobre nós? Por isso, tanto mais o aborreciam por seus sonhos e por suas palavras." Gênesis 37.8

Havia também no mundo antigo uma idéia cultural muito forte quanto ao filho mais velho:

Art. 525"Que o filho mais velho, quando o bem não é partilhado, tenha pelos seus jovens irmãos a afeição de um pai pelos seus filhos; estes devem, segundo a lei, se comportar para com ele como para com um pai."Art. 526. "O filho mais velho faz prosperar a família ou a destrói, segundo ele é, virtuoso ou perverso; o mais velho neste mundo é o mais respeitável; o mais velho não é tratado com desprezo pelas pessoas de bem."
art. 527 " o irmão mais velho que se conduz como um primogênito deve fazê-lo, é venerável como um pai ou uma mãe; se ele não se conduz como tal, deve ser respeitado como um presente." (Código de Manu, cap XX).
Vemos aqui um forte questionamento na família de Jacó sobre liderança: o mais velho ou o mais novo com o título de Primogênito?

O Primogênito podia comandar os seus irmãos na ausência do pai, quando este estivesse muito velho ou incapaz. Assim, naturalmente, o Primogênito já assumia os negócios da família e as responsabilidades do patriarca ainda com o pai vivo se fosse virtuoso e de moral inquestionável. A questão de moralidade e liderança entre irmãos mais velhos eram tão respeitada que na conspiração contra José, houve uma hierarquia de ordens entre Rúben e Judá para decidir o que fazer com ele (em Gênesis 37.22-23 acataram a decisão de Rúben de não matar José e jogá-lo dentro do poço; em Gênesis 37.26, na aparente ausência de Rúben, acataram a decisão de Judá em vendê-lo para mercadores midianitas). De acordo com a tradição talmúdica, Simeão e Levi foram os principais conspiradores.

Em Gênesis 42.37 Rúben argumenta com Jacó sobre levar Benjamim para o Egito em busca de comida, e em Gênesis 42.3, Judá é quem argumenta com Jacó.
Assim, após a queda moral de Rúben e o desaparecimento de José, Judá naturalmente foi assumindo a liderança dentre os irmãos, sendo que na migração de toda a família para o Egito por causa da crise mundial, a sua Primogenitura já estava consolidada.

Além de tomar conta das posses e liderar a família, o Primogênito tinha por obrigação preparar o cortejo fúnebre e honrar o patriarca no seu enterro.
Ao terminar a sua vida no Egito após o reencontro, Jacó teve que realizar um "acordo diplomático" de herança entre José, já escolhido no episódio da manta real e o seu sucessor na liderança da família, Judá(Gênesis 46.28).
José recebeu a Primogenitura oficial porque tornou-se responsável pelo sustento de toda a família(Gênesis 47.12) e pelo enterro de Jacó fora do Egito (Gênesis 47.30).

Mas Judá recebeu a Primogenitura espiritual com uma benção de liderança sobre os seus irmãos e as tribos de Israel (Gênesis49.8), confirmada por Assaf em Salmos 78:

וַיִּמְאַס בְּאֹהֶל יוֹסֵף

וּבְשֵׁבֶט אֶפְרַיִם לֹא בָחָר

וַיִּבְחַר אֶת-שֵׁבֶט יְהוּדָה אֶת-הַר צִיּוֹן אֲשֶׁר אָהֵב


"Ele desprezou a tenda de José, a tribo de Efraim Ele não escolheu. Mas escolheu a tribo de Judá, o monte Sion que ele ama." v.67-68

Observações no texto hebraico:
Judá pode ter se tornado juiz em Israel ( Gênesis 49.10 "a legislação", no hebraico"me-chokek", tem conotação tanto de lei quanto de escrita, daí alguns traduzem como "pena de um escriba" ou "a pena da lei escrita". Ele pode ter sido o responsável em registrar e lavrar a Primogenitura de José). Judá pode também ter influenciado o patriarca a evitar incluir o seu nome no livro da contagem da genealogia de Primogenitura porque o seu primogênito, Er, havia morrido, podendo haver questionamentos sobre os gêmeos que teve com Tamar. Também não tinha condições financeiras de patrocinar a viagem de cortejo fúnebre do pai, obrigação de um primogênito.

* Túnica colorida, em hebraico "ketonet passim", era uma vestimenta real, IISamuel 13.18;
a palavra"passim" pode ser traduzida para "colorida","bordada","com figuras" ou "em faixas". Alternativamente, a palavra denota o material do qual o manto era feito, que era de lã fina ou seda, daí "ketonet passim" pode ser traduzido como "um manto de amplas mangas","um traje de muitas cores", "um traje até os pés", "uma túnica ornamentada", "um manto de seda", ou " um traje de lã fina".

Prof.ª Gláucia Vilela
Bibliografia:
A Torá Viva - O Pentateuco e as Haftarot - Anotado por Rabino Aryeh Kaplan- Editora Maayanot;
DTehilim - Salmos Tradutores: Adolph Wasserman & Chaim Szwertszarf; McKlausen Editora; RJ.
Dicionário Português Hebraico e Hebraico Português - Abraham Hatzamri e Shoshana More-Hatzamri - ed. Sêfer

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Como a Serpente engana o Homem? (Gênesis 3.15)

my.opera.com/.../archive/monthly/?day=20090901 A imagem não é de Eva, é sim de Lilith, uma personagem do folclore popular hebreu medieval associada à Serpente.
No contexto a situação era a seguinte: a Serpente ( do hebraico"nahash") é apresentada como
o mais astuto ( " 'arus", ou esperto) dos animais do campo, e usa de argumentos numa conversa com a mulher com o objetivo de desorganizar a relação do Criador com o Homem.

Os judeus associam a palavra astuto ("'arus") à palavra grega "eros" ( de "erótico"ou "nudez"), já que muitas palavras gregas são de origem semita.
Isso quer dizer que a Serpente, sendo astuta, induz à nudez. Ela faz com que o Homem cometa o erro e que as consequências do mesmo fiquem bem visíveis, tornando-o envergonhado e "nu".

Após consumada a desobediência, a Serpente recebeu outra característica no seu castigo: passa a rastejar. (Gênesis 3.14). Essa é a pista importante para a interpretação do versículo seguinte, que no hebraico está nessa disposição:

וְאֵיבָה אָשִׁית

"E ódio plantarei

בֵּינְךָ וּבֵין הָאִשָּׁה

entre tu (você masculino) e entre a mulher

וּבֵין זַרְעֲךָ

e entre a sua semente ( "zerá" pode ser também: descendente, sêmen, filho)

וּבֵין זַרְעָהּ

e entre a semente dela

הוּא יְשׁוּפְךָ רֹאשׁ

Ele pisará a sua cabeça

וְאַתָּה תְּשׁוּפֶנּוּ עָקֵב

e tu (você) golpearás o seu calcanhar.


Na rivalidade o verbo tanto usado para "Ele" e "tu" é o mesmo: "shuf", que pode ser traduzido como "pisar, atacar, limar,friccionar,raspar." O radical é parecido com "shofet", juiz, árbitro.
Um atacaria a cabeça e o outro o calcanhar do inimigo.

Quem é "Ele"? Entendemos que somente um Ser Divino seria capaz de esmagar totalmente a influência da mente astuta e maligna de uma Serpente, pisando-a num golpe mortal.

Com relação à palavra "calcanhar" do hebraico "'akev", muito nos lembra a história de "Yakov",
ou Jacó, que recebeu esse nome porque nasceu segurando o calcanhar de seu irmão Esaú. (Gênesis 25.26). A palavra "'akev" também pode ser traduzida como "passos". Jacó veio atrás dos passos de Esaú com astúcia, garantindo confusão e benefícios da Primogenitura para si.

Para o caso da Serpente, a melhor tradução do verbo para a sua ação seria "limar, friccinar, raspar" os "passos" (e não o calcanhar) do Messias.

Assim, o castigo de Gênesis 3.15 não estaria direcionado a uma ferida direta no Descendente da mulher e sim uma deturpação de Seus passos pelo rastejar da Serpente, atrapalhando o Homem de encontrar a Salvação seguindo-O.


Proposta de tradução:
"Ele pisará a sua cabeça, e tu rasparás os seus passos."
Bibliografia:
A Torá Viva - O Pentateuco e as Haftarot - Anotado por Rabino Aryeh Kaplan- Editora Maayanot;
Dicionário Português Hebraico e Hebraico Português - Abraham Hatzamri e Shoshana More-Hatzamri - ed. Sêfer


Prof.ª Gláucia Vilela

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Judá e o pecado que matou Onan - Gênesis 38.9-10 - Parte I

Mais um texto que deve ser interpretado com a ajuda de conceitos jurídicos que regiam a época dos Patriarcas.

Judá, pai de Onan, era o quarto dos doze filhos homens que Jacó teve. Lia, sua mãe, havia concebido antes, três meninos: Rúben, Simeão, Levi.

O direito à Primogenitura pertencia a Rúben se ele fosse "iminentemente virtuoso" para tomar posse do rico patrimônio de Israel em sua totalidade ( artigo 522, do capítulo XX, do Livro Nono do Código de Manu).


O pecado que fez Rúben perder o direito à Primogenitura (Gênesis 35.22)

Segundo a tradição Talmúdica, após a morte de sua amada Raquel, Jacó colocou sua cama na tenda da serva Bilá. Rúben então removeu-a para a tenda de sua mãe, Lia. Entende-se também que Rúben deitou-se com Bilá, profanando-a e impedindo que Jacó se aproximasse novamente da serva de Raquel. De qualquer forma, essa discussão familiar foi grave a tal ponto de fazê-lo perder os seus direitos de filho mais velho, oficialmente em Gênesis 49.3-4:

"Rúben, tu és meu primogênito, minha força e o início da minha maturidade, primeiro em distinção e primeiro em força. Mas porque tu foste instável como água, tu não serás mais o primeiro. Isso porque tu mudaste as camas de teu pai, cometendo um ato profano. Ele mudou minha cama!"

Simeão e Levi também perderam o direito à Primogenitura:

Segundo e terceiro filhos respectivamente, também perderam o direito à Primogenitura em Gênesis 34 matando covardemente os varões da cidade de Siquém em defesa da honra de sua irmã desflorada, Diná:

"Simeão e Levi são um par (irmãos); instrumentos de crime são suas armas. Que minha alma não entre na trama deles; que meu espírito não se una com a assembléia deles - pois mataram homens com raiva, desmembraram bois com vontade. Maldita seja a cólera deles, pois ela é feroz, e sua fúria, pois ela é cruel. Eu os dispersarei em Jacó, os espalharei em Israel."(Gênesis 49.5-7)

Judá, o quarto filho de Israel, recebeu o direito da Primogenitura, passando a comandar os patrimônios da família, sendo também o participante na sucessão divina da genealogia do Messias:

"Judá, teus irmãos se submeterão a ti. Tua mão estará sobre o pescoço de teus inimigos; os filhos de teu pai se inclinarão a ti. Jovem leão, Judá, tu te ergueste da presa, meu flho. Ele se agacha, deita como um leão, como um temível leão, quem ousará erguê-lo?

O cetro não se afastará de Judá, nem a legislação de seus descendentes."

Quando Jacó proferiu a "benção da herança" antes de sua morte, todos estavam no Egito, em dificuldades financeiras por conta da seca e aos cuidados de José (Gênesis 47.28). Mas Judá,
extra oficialmente já havia recebido o prêmio de Primogênito.

Assim, ao se distanciar da confusão com seus *irmãos após a venda de José ao Egito, e se casar com a filha de um mercador cananeu (Gênesis 38.1) , Judá já era considerado um Príncipe, o verdadeiro herdeiro de Israel.


(continua)
* tramavam a morte de José porque percebiam juridicamente a possibilidade de transferência do direito à Primogenitura para ele, filho mais velho de Raquel, já que os filhos mais velhos de Lia não estavam aptos; a manta dada por Jacó e os sonhos de José reforçaram essa teoria.
link sobre Primogenitura:
Países que ainda adotam a Lei Primogenitura:

"Primogenitura (ou mais apropriadamente primogenitura masculina) é um mecanismo através do qual os descendentes do sexo masculino de um soberano têm precedência sobre descendentes do sexo feminino, e onde as linhagens mais antigas têm precedência sobre as mais jovens, em cada género. Os filhos mais velhos têm sempre precedência sobre os filhos mais novos. Os filhos mais jovens têm sempre precedência sobre as filhas mais velhas. O direito das sucessões pertence sempre ao filho mais velho do soberano reinante (ver herdeiro aparente), e, depois, para o filho mais velho do filho mais velho. Este é o sistema utilizado no Reino Unido, Espanha e Mónaco.
Outros membros com títulos nobiliárquicos seguem esse sistema de filhos e filhas, mas são considerados iguais como co-herdeiros, pelo menos na prática na Bretanha moderna. Isto pode resultar na condição conhecida como suspenso. No período medieval, a prática efectiva variava consoante os locais e costumes. Embora as mulheres pudessem herdar casas senhoriais, esse poder era geralmente exercido pelos seus maridos (jure uxoris) ou pelos seus filhos (jure matris).

Primogenitura absoluta ou igualitária
A primogenitura igualitária (ou primogenitura absoluta) é uma lei em que o filho mais velho do soberano sucede ao trono, independentemente do sexo, e onde mulheres (e seus descendentes) gozam dos mesmos direitos de sucessão como do sexo masculino. Este é actualmente o sistema na Suécia (desde 1980), Países Baixos (desde 1983), Noruega (desde 1990) e Bélgica (desde 1991). Foi proposto mudar a linha de sucessão ao trono britânico para a primogenitura absoluta em 2004.
Prof.ª Gláucia Vilela